Herculine

 
 
Nos últimos anos tem se discutido de forma mais intensa as questões relacionadas a gênero e suas diversas dimensões, sobretudo por conta do aumento dos casos de feminicídio e de homofobia em todo o país. Colocar o foco sobre estas questões é cada vez mais urgente e necessário e a arte é um dos caminhos mais promissores na possibilidade de demonstrar as humanidades envolvidas nestes casos. Discutir, tendo o teatro como espaço propulsor do debate é uma das características da Trapiá Cia Teatral.

Em 2015 o coletivo montou o espetáculo P’s de Gregory Haertel inspirado no livro do filósofo francês Michel Foucault, “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”, levando para o palco uma discussão densa sobre o papel da justiça, da psiquiatria e do meio social na construção das identidades e personalidades humanas. Retornaremos ao universo de Foucault, tendo agora como inspiração o livro “Herculine Barbin: o diário de um hermafrodita”, tendo como dramaturgo novamente Gregory Haertel.

Na apresentação do livro, Michel Foucault, nos faz uma provocação (o que lhe era peculiar), perguntando: “Precisamos verdadeiramente de um verdadeiro sexo?” E continua: “Com uma constância que chega às raias da teimosia, as sociedades do ocidente responderam afirmativamente a essa pergunta. Situavam obstinadamente essa questão do ‘verdadeiro sexo’ numa ordem de coisas onde se podia imaginar que só contam a realidade dos corpos
e a intensidade dos prazeres.” Este livro foi publicado na França em 1978, tendo como título original “Herculine Barbin dite Alexina B”, e no Brasil em 1983 (Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro). Não diferente de outras obras de Foucault que apontam para personagens não muito desejadas, ou como ele mesmo dizia, “anormais” para a sociedade hegemônica, em “Herculine Barbin: o diário de um hermafrodita”, o autor coloca diante de nossos olhos e sensibilidades as angústias e desafios de Herculine num mundo que não a desejava, que a excluía, que a desprezava. O livro traz seu diário sem alterar em nada sua escrita, e logo depois o livro vem acompanhado de relatórios sobre o caso e discussões sobre a medicina e o direito no século XIX, sobretudo. Vale salientar que Herculine, em seus registros tinha por nome completo Adélaïde Herculine Barbin, nascida em 08 de novembro de 1838 em Saint-Jean-d’Angély, sudoeste da França.

O que mais chama a atenção é a atualidade da discussão. A questão do hermafroditismo, termo que caiu em desuso e atualmente se usa mais comumente o conceito de “intersexo”, ainda é um tabu e em muitos casos o preconceito e a não aceitação familiar e social é o que ainda prevalece. A dor de Herculine é a dor de muitas pessoas que passam pela mesma situação. Os primeiros parágrafos do diário de Herculine já apontam para a sua vida e seus desafios: “Tenho vinte e cinco anos, e, embora seja ainda jovem, começo a não duvidar do termo fatal de minha existência. Sofri muito, e sofri só! Só. Abandonado por todos! Não havia lugar para mim nesse mundo que me evitava e considerava maldito. Não havia um só ser humano que compartilhasse dessa imensa dor que se apoderou de mim no final da infância, idade em que tudo é belo porque toda perspectiva é nova e brilhante. Esta idade não existiu para mim. Eu tinha, desde então, um distanciamento instintivo do mundo, como se houvesse já compreendido que viveria nele como um estrangeiro.”

São assustadores os casos de intolerância e desrespeito contra o universo não heterossexual no país. Dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 38 anos faz levantamento sobre crimes cometidos contra trans e intersexos, apontou um aumento destes crimes em 30% de 2016 para 2017, passando de 343 para 447 assassinatos, o que faz do Brasil o campeão mundial desse tipo de crime.

Montar o espetáculo “Herculine” é necessário e urgente.

 

FICHA TÉCNICA

– Direção: Lourival Andrade
– Texto: Gregory Haertel
– Elenco: Alexandre Muniz
– Consultoria (Universo Foucaultiano): Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Junior
– Consultoria (Universo Trans e intersexo): Helena Agalenéa
– Concepção de Trilha Sonora: Aglailson França
– Execução de Trilha Sonora: Emanuel Bonequeiro e Aglailson França
– Cenário, Figurino e Iluminação: Custódio Jacinto
– Fotografia: Clóvis Aladim
– Produção: Tatiane Fernandes/Mapa Realizações Culturais

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